É bom
escrever pra você, Amador. Mesmo que não entenda a vontade de escrever para
alguém que não se vê mais e de quem some deixando resquícios de notícias. Mas
suaviza. Torna a respiração mais leve e deixa o coração num compasso mais
delicado. Deixa os dias mais claros e ameniza a espera por outra primavera.
Esse outono foi longo demais, não foi? Houveram dias em que pensei que seria
pra sempre assim e que a gente nunca mais conseguiria ver beija-flores, nem
sentiria a chuva tocar a pele com toda aquela sensação de quem sente a alma ser
lavada, nem as manhãs de domingo e o seu entardecer. Porque são por demais
melancólicos, lembram fotografias antigas os domingos de outono. Mas existe
algo bom nesses dias tristes e é a mesma coisa boa que a gente vê na solidão,
na dor ou quando o desejo cala. E você mais uma vez tentaria mostrar que não
existe sequer uma coisa boa nisso, mas te responderia que há sim, e que eu
chamaria “adultamente” de maturidade. Nós crescemos e aprendemos, porque
precisamos nos encontrar de alguma forma quando estamos só. Então sofremos. Dói
um pouco. Alivia. Desaparece. E é aí que aprendemos a enxergar com os olhos de
dentro. Criamos constantes. Simulamos probabilidades. A gente respira. Pensa. E
vê que a vida ainda pode ser doce mesmo quando tudo insiste em ser melancolia.
Não me
tranco em casa nem quando é inverno, você bem sabe. Gosto de ver pessoas e de
observar a rua, ambos em seus entardeceres. Penso que algumas delas (falo
apenas das pessoas desta vez), a maioria deixa passar despercebido. Não consigo
culpá-las, sabe. No mais, viver é isso, não é? Uma montoeira de coisas
desconhecidas, passando rapidamente diante dos olhos, o tempo todo, e ficamos
sem conseguir agarrá-las. Não quero que seja assim pra sempre, Amador. Sempre
deixei claro, e combinamos em meio as nossas conversas que seria diferente,
apesar de. E confesso que eu prometi (cheia das minhas convicções), que seria.
Por isso ando economizando palavras, aparições, sentimentos, um sorriso aqui,
outro ali,. Pra que eu saiba sentir quando chegar a hora. E vou ver você durante esse inverno. Esse inverno. Daí, se quiser, pode vir comigo pelas
outras estações, que já sei de cór, escala e cor definidas pra passear por
elas. Sim Amador. Eu sei que não é tão simples. Mas a gente andou aprendendo a
caminhar só.. E aos poucos tudo vai se ajeitando. E eu acredito cheia de uma
esperancinha tímida de tão boba, como essa paz que tenho em lhe escrever. Em
breve a gente se vê, seu moço.
A.Gouveia
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