Essa semana Mãe me falou por telefone, que Vó está parecendo entregar os pontos.
Passa os dias deitada no quarto orando entre uma cochilada e outra, levanta só para comer
(quando come), tem dito poucas palavras, não tem sentado na varanda para ver a rua e o dia.
Dia desses entre uma conversa e outra falou que anda muito cansada.
Ao contrário de muitas pessoas com seus quase 100 anos, Vó nunca falou em morrer.
Sempre teve força suficiente para encarar AVC, cirurgias no intestino, diabetes, feridas que não cicatrizam na pele já muito frágil, uma cadeira de rodas, dores nos joelhos e nos ossos que os médicos de uns dias pra cá disseram que não conseguem encontrar solução.
Emagreceu bastante, mas enfrentou com bom humor a necessidade de usar uma sonda para se alimentar, usou bengala por uns tempos até se lembrar que ainda tinha força suficiente para andar sozinha, mesmo se escorando nas pessoas e nas paredes...
Lembro dos biscoitos guardados no pote, sempre prontos com chá que ela me oferecia.
Lembro ela guardando bem escondido, as cartas e desenhos que eu fazia e que ela adorava!
Mas que ela não conseguia ler.
Lembro das plantinhas sempre bem cuidadas e os almoços de domingo sempre às 11 horas.
Lembro as lágrimas caindo dos olhinhos dela quando fiquei doente certa vez, e num abraço ela disse que daria tudo certo...
E agora Mãe vem me dizer que ela tem andado bem tristinha, até nos dias de sol.
E eu andei com muito medo de que a luz dela se apague, levando um bocado da minha também.
Porque ela, além de me guiar, é também a esperança que eu tenho.
Porque sabe diferir de tanta coisa, de tanta gente, ela nunca deixou de acreditar na vida, no amanhecer, em mim...
E eu, que coloquei os pés na estrada muito cedo, mesmo assim não me acostumei com esse compasso natural da vida, chorei de soluçar de saudade, de medo, de solidão...
Acontece que eu não sei o que fazer, o que pensar, o que dizer aqui dessa distância toda, sem poder vê-la todos os dias e ajudar a curar-lhe todo esse aperto e essas aflições...
Pedi a Deus um pouquinho de alegria pra esse dia vazio e nublado. Acho que ele preferiu me dar fé...
A.Gouveia
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